Palavras podem contribuir para a desigualdade

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20 Out '26

No Dia Mundial para a Igualdade, celebrado a 24 de outubro, a Câmara Municipal do Seixal lança um desafio aparentemente simples. Refletir sobre de que modo os provérbios ou algumas expressões idiomáticas usadas regularmente contribuem para normalizar e perpetuar estereótipos, discriminar com base no género, excluir, influenciar escolhas ou limitar oportunidades.

A partir de frases como «os homens não choram», «correr como uma menina», «do homem a praça e da mulher a casa», «um olho no burro, outro no cigano», «a mulher honrada sempre deve ser calada», «surdo que nem uma porta» pretende-se refletir sobre como a escolha das palavras pode contribuir para a desigualdade.

A linguagem interfere diretamente na forma como construímos a imagem do outro. A utilização deste tipo de expressões, aparentemente simples, reforça ideias preconcebidas e dificulta a apreensão de informação factual sobre a verdadeira dimensão da desigualdade.

No Dia Municipal para a Igualdade, o município do Seixal alerta para esta temática e para a necessidade de desconstruir estereótipos. Esta é uma iniciativa à qual o Seixal se associa e que, desde 2010, mobiliza municípios, organizações e comunidades de todo o país em torno da igualdade, inclusão e participação.

Parece apenas uma frase, mas pode esconder uma desigualdade.

“Correr Como Uma Menina”

Quando usamos esta frase para dizer que alguém corre mal, é fraco ou não tem capacidade, estamos a transmitir uma ideia que vai muito além das palavras: a de que ser menina ou mulher significa ser menos forte, menos capaz ou menos competitiva.

Os estereótipos constroem-se assim. Repetem-se em casa, na escola, no recreio, nos meios de comunicação, nas bancadas e nos espaços desportivos. E, quando são repetidos vezes suficientes, podem influenciar escolhas, limitar oportunidades e condicionar a forma como meninas e mulheres se veem a si próprias.

Em 1984, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, Rosa Mota conquistou a medalha de bronze na maratona, tornando-se a primeira mulher portuguesa a conquistar uma medalha olímpica. Quatro anos depois, em Seul, conquistou a medalha de ouro olímpica na mesma prova. 

Em 1996, Fernanda Ribeiro conquistou o ouro olímpico nos 10 000 metros, em Atlanta. Já mais recentemente, Patrícia Mamona conquistou a medalha de prata no triplo salto nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020. 

Em 2024, estavam inscritos nas federações desportivas portuguesas 844 186 praticantes. As mulheres eram maioritárias na ginástica (90 por cento), na patinagem (62,4 por cento), no voleibol (58,3 por cento) e na natação (55,9 por cento). Contudo, no futebol, os homens representavam 92 por cento dos praticantes. Entre os treinadores federados apenas 14 por cento eram mulheres. (Desporto em Números / Sport in Numbers, 2025)

“Os Homens Não Choram”

Durante gerações, esta frase ensinou que um homem deveria ser forte, resistente, corajoso e capaz de enfrentar tudo sozinho. Chorar, demonstrar medo, pedir ajuda ou falar sobre sofrimento emocional foi muitas vezes associado à fraqueza.

É assim que uma simples frase pode tornar-se uma narrativa social: ensina o que significa «ser homem» e, simultaneamente, o que se espera de uma mulher. São papéis que limitam ambos.

A igualdade não significa retirar força aos homens. Significa permitir que um homem possa ser forte sem ter de esconder a sua vulnerabilidade; possa cuidar sem ser considerado menos homem; possa ser pai sem ser visto apenas como provedor; e possa pedir ajuda sem sentir vergonha.

Em 2023, a taxa de mortalidade por suicídio em Portugal foi de 16,4 por 100 mil homens, contra 3,7 por 100 mil mulheres — mais de quatro vezes superior entre os homens

Fonte: Objetivos de Desenvolvimento Sustentável - Agenda 2030 Indicadores para Portugal - 2015/2024

Em 2024, por cada 100 crianças nascidas, 96,5 por cento das mulheres beneficiaram da licença parental de 120/150 dias, enquanto apenas 45,9 por cento dos homens a partilharam. Os estereótipos que colocam o homem no papel de provedor e a mulher no papel de cuidadora também podem limitar os homens na participação plena na vida dos filhos.

Fonte: CIG — Boletim Estatístico 2025: Igualdade de Género em Portugal

Em 2024 registaram-se 119 acidentes de trabalho mortais em Portugal: todas as vítimas eram homens. Estes dados mostram uma forte desigualdade de género na mortalidade laboral e justificam que também se questione a forma como os homens são socializados para assumir riscos, resistir à dor e «aguentar» sem pedir ajuda.

Fonte: Direção Geral de Coordenação e Planeamento – Estatística em Síntese

“Do Homem a Praça e da Mulher a Casa”

Este provérbio condensa uma visão tradicional da sociedade que atribui a homens e mulheres lugares, funções e responsabilidades diferentes em função do sexo. Ao homem associa-se a «praça»: o espaço público, político, económico e profissional.  À mulher associa-se a «casa»: o espaço privado, doméstico e familiar, associado ao cuidado, à educação dos filhos, à organização do lar e ao trabalho não remunerado.

Esta ideia contribui para reproduzir estereótipos de género, no qual os homens são sobretudo provedores e as mulheres cuidadoras, de que o trabalho remunerado é prioritariamente masculino e de que as responsabilidades domésticas pertencem sobretudo às mulheres.

A igualdade começa também dentro de casa: quando o trabalho doméstico e de cuidado é reconhecido como responsabilidade de todas as pessoas, quando o rendimento e as oportunidades não são determinados pelo género e quando mulheres e homens podem ocupar plenamente tanto a «praça» como a «casa».

Em Portugal, a diferença média de salário entre mulheres e homens é de 12,5 por cento no salário-base e de 15,4 por cento nos ganhos.

Fonte: CIG — Boletim Estatístico 2025: Igualdade de Género em Portugal

As mulheres são habitualmente responsáveis pelas tarefas domésticas, como lavar e cuidar da roupa (77,8 por cento), preparar as refeições (65 por cento) e limpeza da casa (59,3 por cento). Os homens fazem mais habitualmente os pequenos arranjos e restauros da casa (78,3 por cento).

Fonte: CIG — Boletim Estatístico 2025: Igualdade de Género em Portugal

Em Portugal, mais de um quarto das mulheres trabalhadoras (26,8 por cento, cerca de 590 mil) têm vínculos precários — um fenómeno que se agrava entre as mais jovens e as estrangeiras.

Fonte: CIG

“Um Olho no Burro, Outro no Cigano”

Quantas vezes repetimos expressões populares sem pensar no preconceito que podem transportar? A linguagem não é neutra. As palavras que usamos ajudam a construir a forma como vemos o mundo e as pessoas que dele fazem parte.

Quando uma expressão associa uma comunidade a desconfiança, perigo ou falta de honestidade, estamos a reforçar uma imagem negativa que pode contribuir para a discriminação. Estamos a perpetuar um estereótipo. A discriminação contra as pessoas ciganas continua a ser uma realidade em Portugal.

No inquérito realizado em 2024, com 422 pessoas ciganas em Portugal, 63 por cento disseram ter experienciado discriminação. 48 por cento afirmaram ter vivido situações de assédio motivado pelo ódio.

Fonte: Roma and Travellers Survey - 2025 - Country Data - Portugal)

A discriminação manifesta-se em diferentes áreas da vida: 70 por cento sentiram discriminação quando procuravam trabalho; 57 por cento sentiram discriminação quando procuravam habitação; 31 por cento sentiram discriminação no contacto com a escola.

Fonte: Roma and Travellers Survey - 2025 - Country Data - Portugal)

“A Mulher Honrada Sempre Deve Ser Calada”

Esta frase canaliza uma narrativa que condiciona o valor moral de uma mulher à sua capacidade de se manter em silêncio. É um provérbio que transforma um comportamento imposto (não falar, não reclamar, não denunciar, não ocupar espaço) numa virtude e que transforma a mulher que fala, discorda ou exige numa figura suspeita ou «desonrada»-.

Este tipo de narrativa funciona como um mecanismo de controlo social com efeitos muito concretos: silencia vítimas de violência e assédio; deslegitima a voz das mulheres no espaço público; transfere a responsabilidade da violência para quem a sofre; torna socialmente aceitável um comportamento que, na prática, protege agressores e isola vítimas. Entre pessoas que trabalham ou já trabalharam em Portugal, 12,3 por cento das mulheres afirmaram ter sido vítimas de assédio sexual em contexto laboral, contra 5,2 por cento dos homens.

Fonte: Prevenção e proteção contra o assédio sexual no trabalho em Portugal – Relatório nacional sobre o quadro jurídico e as práticas jurisdicionais

Em 2025, foram registadas 29 644 mil participações por violência doméstica em Portugal, com 69 por cento das vítimas a serem mulheres.

Fonte: Relatório Anual de Segurança Interna 2025

A proporção de mulheres eleitas para as câmaras municipais triplicou entre 2001 e 2021, passando de 13,6 por cento para 33,2 por cento — ainda assim aquém do limiar mínimo de 40 por cento fixado por lei desde 2019.

Fonte: https://www.eleicoes.mai.gov.pt/autarquicas2025/candidatos

“Surdo Que Nem Uma Porta”

Quantas vezes repetimos expressões populares sem pensar no significado que carregam? A linguagem não é neutra. As palavras que usamos ajudam a construir a forma como vemos o mundo e as pessoas que dele fazem parte.

Quando usamos a palavra «surdo» para dizer que alguém não ouve, não percebe ou ignora o que lhe é dito, estamos a transformar uma característica de uma pessoa numa ideia de incapacidade. Ser surdo não significa ser incapaz.

Mas a igualdade não se constrói apenas mudando palavras. Constrói-se também garantindo que todas as pessoas conseguem aceder aos serviços de que precisam.

O preconceito contra a pessoa surda manifesta-se também na ausência de indicadores oficiais específicos: a falta de métricas adequadas e a má formulação de perguntas nos censos nacionais ocultam as necessidades linguísticas e culturais desta comunidade, impedindo o desenho de serviços públicos acessíveis. A principal exclusão diária ocorre no acesso à informação e cuidados médicos. A falta de intérpretes de Língua Gestual Portuguesa e de alternativas de contacto digital (como SMS ou canais de texto) nos hospitais compromete gravemente o direito à autonomia e à confidencialidade dos pacientes surdos.

Fonte: Universidade Portucalense

Entre 2015 e 2022, Portugal aumentou a despesa pública com a proteção social para pessoas com deficiência em apenas 14 por cento, fixando-se significativamente abaixo do esforço médio da União Europeia, que registou um aumento de 23 por cento.

Fonte: Observatório da Deficiência e Direitos Humanos

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